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Category Archives: OPINIÃO

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foto: Hermanna Prinsen

A intervenção efectuada na antiga Doca dos Olivais, onde foi instalada a Expo 98, no limite oriental de Lisboa, e o que dela resultou afastou-se bastante das expectativas estabelecidas na altura. Foram necessárias várias adaptações ao programa estratégico original para garantir a sustentabilidade da gestão urbanística.

Afastou-se bastante também, por isso, do cenário futurista do tempo em que funcionou a exposição mundial, dando lugar ao que é hoje uma zona extremamente densificada, mas mantendo ao mesmo tempo um certo dinamismo.

A intervenção urbana da Expo 98, coordenada pela entretanto criada Parque Expo S.A., foi tido como exemplo e o seu modelo serviu de base ao Programa Polis que, posteriormente, esteve na base de revitalização de algumas zonas urbanas no país.

O jornal online CaféBabel.com publicou um trabalho sobre a cidade de Sevilha, que foi palco da exposição mundial em 1992, há 17 anos atrás. Este dossier inclui uma foto-reportagem sobre o sítio onde funcionou o evento, na Ilha da Cartuja, mostrando imagens de verdadeira degradação.

Parte do recinto onde funcionou a Expo de Sevilha está agora parcialmente ocupado com um centro de investigação e um parque temático.

Olhando para o caso português e para o espanhol, não custa nada perceber que o modelo de gestão das reminiscências do que foi a Expo 98 está longe de ser um fracasso. Aquilo que existe hoje no Parque das Nações está também longe do cenário de degradação que mostram as fotografias, continuando a ser uma das zonas mais atractivas da capital.

Na história do urbanismo moderno em Portugal, após o 25 de Abril, a intervenção da Expo 98 é claramente o marco mais importante. Foi desde essa altura que temas como a revitalização urbana das cidades, como garantia de uma maior competitividade das próprias cidades e das regiões passou a tomar forma e a fazer definitivamente parte da agenda política.

site CaféBabel.com

A Câmara Municipal de Guimarães apresentou o seu projecto para o novo recinto da feira semanal da cidade, junto ao actual Mercado de Guimarães. O projecto é da autoria do Arquitecto Manuel Antunes e integra o interior de um quarteirão que compreende as Ruas de D. João I, do Montinho e a D. Bento Cardoso, onde fica o antigo convento das Dominicas.

O projecto prevê ainda a ligação, através da via que agora dá acesso ao novo mercado à zona de Trás-de-Gaia e ao Guimarães Shopping. Está previsto um recinto com uma capacidade para 235 feirantes e foi apresentada ainda a capacidade “alternativa” do recinto para albergar outro tipo de eventos, onde poderão caber 10 mil pessoas.

A proposta tem um aspecto visual interessante, com um viaduto pedonal que atravessa todo o recinto e que constitui um elemento marcante e que irá valorizar sempre o sítio.

Do ponto de vista da relação da proposta com os elementos existentes, garante-se que o actual percurso da viela fique marcado no recinto, através do tratamento diferenciado do pavimento. Fica portanto salvaguardada a “memória” daquele atravessamento, como defenderam os autores do projecto. O enquadramento do edifício do Convento das Dominicas foi igualmente uma preocupação, embora não tenha ficado claro na apresentação de que forma essa valorização foi materializada no desenho.

A nova “via estruturante” proposta, que resulta do prolongamento do cul-de-sac existente, em frente ao mercado, vem igualmente promover a consolidação urbana e a acessibilidade automóvel do sítio, possibilitando o atravessamento daquela área, resultante do interior do enorme quarteirão que enforma o recinto.

 

Tendo em conta outras experiências do género, nomeadamente a construção do recinto da feira das Caldas das Taipas, talvez fosse interessante perceber o que falhou neste projecto e encontrar algumas soluções para as suas insuficiências ou mesmo deficiências.

Este tipo de intervenção é regra geral simples. Trata-se de espaço aberto, que é tratado ao nível do pavimento, mas que permite a todo tempo a sua reabilitação para outro tipo de usos. Daí que, ao contrário do foi dito na apresentação do projecto, a expectativa mantém-se com a reversibilidade do uso e assim, também a especulação inerente.

Duas das opções que foram também tomadas no recinto da feira das Caldas das Taipas, respeitam ao tipo de pavimento proposto e a não utilização das árvores no interior do recinto. Esta última justificada pela desejada polivalência do espaço, permitindo a realização de eventos vários.

A opção pelo pavimento betuminoso, implica a total impermeabilização de uma área considerável, o que tem implicações ao nível da infiltração das águas pluviais, da manutenção dos ciclos naturais da água e ainda do aumento da torrencialidade da água, aumentando a probabilidade de ocorrência de cheias, que já são frequentes naquela zona da cidade. Portanto, era desejável que, ao nível do pavimento, se optasse por um pavimento permeável, que permitisse uma maior infiltração das águas das chuvas e assim um menor impacto no sistema de águas.

Houve, tal qual como no caso das Caldas das Taipas, uma certa aversão à plantação de árvores no recinto, com a justificação de salvaguardar o espaço para outras utilizações que necessitassem de uma área livre. Ora, parece que esta opção não será a melhor, na medida em que não aproveita o potencial criado com um recinto deste género.

A aversão à sua plantação é, nos tempos que correm, um contra-senso. As áreas verdes e arborizadas são, cada vez mais, um importante activo para o ambiente e para a qualidade de vida das cidades. O argumento de que as árvores estorvam, não poderá ser justificação suficiente.

O espaço sairia mais valorizado no caso de ser aproveitado para um novo espaço verde, fresco e agradável, possível de ser utilizado durante praticamente todos os dias (excepto no dia de feira), em vez de um recinto desagradável, seco e terrivelmente quente nos dias de calor, utilizado nos dias de feira e pouco mais. Parece evidente que a cidade e os seus habitantes ganhavam muito mais com a primeira hipótese.

Outro dos aspectos que falhou no recinto das Caldas das Taipas foi encontrar uma solução para a fixação das tendas. O que se passa é que como o recinto não tem pontos de ancoragem os feirantes tratam de os criar à sua maneira, fazendo furos no pavimento – furos esses que se vão alastrando com o tempo. Seria talvez importante pensar numa solução, que ficaria facilitada no caso de um piso permeável (por exemplo, com blocos abertos de betão).

Finalmente, o último reparo que se faria em termos de desenho, respeita às confrontações do recinto com as traseiras do edificado existente à volta. Pela planta apresentada, não foi salvaguardada uma zona tampão o que na prática irá resultar na total visibilidade das traseiras dos edifícios.

À excepção do Convento das Dominicas e da sua valorização visual, seria necessário solucionar o problema da visibilidade das traseiras dos edifícios a partir do interior do recinto, permitindo desta forma uma melhoria uma maior qualidade visual do cenário a partir do interior do recinto.

Apresentação do Projecto do Novo Espaço da Feira Semanal

A recente discussão em torno da alteração de uso de uma parcela de terreno, no Parque da Cidade de Guimarães, é um exemplo curioso de apropriação de um espaço que, não sendo público, por pertencer a entidades particulares, é apropriado ao longo do tempo pelos utilizadores do espaço público, neste caso do parque.

O parque da cidade fica localizado do lado nascente relativamente ao centro urbano de Guimarães, numa área de 22 hectares e que resultou de um entendimento entre cinco proprietários, um dos quais a Câmara Municipal de Guimarães. O parque caracteriza-se por um espaço aberto, atravessado por vários trilhos pedestres e limitado por árvores que anteriormente serviriam para delimitar os campos agrícolas.

Desde que este espaço se tornou utilizável, depressa foi tomado pela população como um espaço de eleição para momentos de descontracção e de lazer. Automaticamente o espaço foi apropriado, ou seja foi transformado em espaço público, mesmo aquele que continuava na propriedade de privados. Os utilizadores do parque foram descobrindo os percursos e os seus locais que mais gostavam. Enfim foram criando uma relação afectiva com o espaço.

Os limites do parque, assim como a esquematização espacial que os seus utilizadores foram criando à medida que o iam tornando seu, está agora a ser baralhado, devido a uma intervenção que, pelo que diz o presidente da CMG, António Magalhães, e o vereador com a pasta do urbanismo, Júlio Mendes, já estava prevista logo desde o início da criação do parque.

O erro foi que, desde o início, os limites entre o que era público público e o que era privado não ficaram claramente definidos e este último foi apropriado naturalmente pelos utilizadores do parque da cidade. Para além disso, as manifestações mais desfavoráveis argumentam que se trata de uma “invasão” de um espaço verde o que contraria os valores ambientais e de respeito pela natureza que são agora defendidos pelos próprios poderes públicos.

Resta-me acrescentar que a intervenção que está agora a ser feita poderá, ao contrário do que mais facilmente se poderá concluir, ser benéfica para o parque, desde que o projecto de arquitectura tenha em conta a envolvente e particularmente alguns aspectos fundamentais para o funcionamento futuro do parque.

O parque da cidade sempre enfermou de dois problemas que costumam ser graves nos parques urbanos: primeiro o seu carácter marginal ao conjunto urbano e; segundo (decorrente do primeiro) a falta de segurança passiva dentro do parque. Ter habitação em permanente relação com o parque pode ser benéfico.

Quanto ao primeiro ponto é fácil perceber que o espaço do parque da cidade não é um espaço permeável ou seja, relaciona-se de forma deficiente com a envolvente, não está “cozido” com o que está à sua volta. Quem entra no parque dificilmente irá a outro lado porque o parque não permite ser atravessado. Quem entra no parque, terá invariavelmente que sair por onde entrou.

Assim, o edificado que deverá agora aparecer nos limites do parque, deverão ter a capacidade de construir aquela permeabilidade de dentro para fora e vice-versa, ou seja inverter a característica marginal que tem o parque hoje. Evidentemente o seu impacto visual deverá ser minimizado, recorrendo a materiais e volumetrias adequados. Mas este é um problema que atravessa o domínio do urbanismo e entra no da arquitectura.

No que respeita ao segundo ponto, é frequente lermos notícias de que o parque da cidade é vandalizado por diversos motivos. O parque não é seguro, principalmente à noite. Não é seguro porque ninguém está lá para o vigiar. Não só porque não terá policiamento suficiente, mas sim porque não tem uma utilização permanente. A função habitacional, que é uma função permanente, permite que o parque passe a ter uma ocupação, mesmo que as pessoas permaneçam dentro de casa, aumentando a probabilidade de os utentes do parque serem vistos, aumentando assim a segurança passiva do local – sensação de que alguém poderá estar a ver é muitas vezes suficiente para impedir actividades não desejadas nos espaços públicos, ao afastar utentes menos desejados.

Muitas vezes me perguntam qual a função de um planeador do território como eu. Normalmente, para obviar a conversa respondo que a minha função é muito parecida com a de um arquitecto, com uma diferença: o arquitecto projecta as casas. Um urbanista desenha o resto: as ruas, os passeios, os parques e diz ao arquitecto onde deverão ficar os edifícios que ele depois irá desenhar.

Claro que esta é uma forma muito simplificada de explicar uma actividade que de simples não tem nada. Ainda por cima em Portugal, onde a figura de planeador do território (regional e urbano) está ainda algures entre Vénus e Marte.

O que deverá fazer então um planeador do território? Qual a sua função e posicionamento no processo de construção das nossas cidades? Porque será tão importante o seu papel, no sentido de garantir uma melhor qualidade de vida aos utentes da cidade?

Primeiro há que distinguir três conceitos: planeador do território, urbanista e arquitecto. Assim, por esta ordem. O planeador do território poderá actuar primeiro ao nível regional e depois ao nível local e urbano. Tem um âmbito de acção muito alargado e multidisciplinar. Recorre a dados estatísticos para, através de modelos matemáticos, projectar tendências futuras. Conduz estudos e dirige auscultações e apresentações públicas, com agentes políticos, económicos sociais e outros. Está atento às grandes políticas internacionais, europeias e nacionais, para que as opções de desenvolvimento sejam enquadradas no sentido do desenvolvimento e coesão regional . Tem a função de ordenar o território. Conclui que usos deverão ter os solos: que equipamentos serão necessários, dimensiona-os e propõe a melhor localização; habitação; zonas industriais; zonas a proteger; etc.

O urbanista trabalha numa equipa mais restrita e procura satisfazer as necessidades localizadas em projectos delimitados territorialmente. Considera as referências fornecidas pelo planeador do território. Desenvolve soluções de desenho urbano ao nível dos espaços públicos. Escolhe os melhores materiais, mobiliário urbano. Garante condições acessibilidade para todos. Estuda a compatibilidade de circuitos pedonais, automóveis ou cicláveis.

Finalmente, o arquitecto desenvolve os projectos dos edifícios, de acordo com as zonas definidas pelo planeador do território e pelo urbanista. Respeitando as orientações das edificações, que deverão garantir, por exemplo, a melhor exposição à luz solar. Deverá garantir as melhores condições de salubridade no interior dos edifícios, particularmente nas habitações. O trabalho do arquitecto é praticamente um trabalho em que as relações existentes, na maioria dos casos, são apenas entre o projectista e o cliente da obra.

Este processo deveria ser simples de implementar. Parte de um âmbito disciplinar e de um grupo de intervenientes alargado, para que na sua conclusão seja apenas quase um trabalho de autor – o arquitecto. O que se passa em Portugal é a subversão completa desta ordem de ideias. Os equipamentos são localizados consoante os terrenos que normalmente as autarquias possuem. Raramente são os melhores. Constrói-se avulso, sem nenhum tipo de planeamento em função da vontade dos proprietários. Ocupa-se o território e só depois é que fazem os planos, com todos os prejuízos que daí advêm. Fizemos os planos municipais, depois os regionais e depois definimos uma política nacional quando era exactamente ao contrário que as coisas deviam ter sido feitas.

Da mesma forma que por vezes nos esquecemos dos aspectos mais básicos que suportam a nossa existência como indivíduos, também nos vamos esquecendo do que alimenta e qual o sentido primordial das coisas mais elementares no meio que nos rodeia.

Por várias vezes escrevi que as cidades fazem sentido se tiverem gente dentro. Gente que comunica entre si, que troca, que discute e que se apaixona. A cidade é um organismo. Um sistema, alimentado por estes inputs que, quanto mais consistentes forem, melhor será a nossa qualidade de vida como comunidade.

As crianças precisam de saber o que é e como funciona a cidade. E a cidade por sua vez precisa das crianças para ter mais vida e, seguramente mais alegria. As crianças precisam de se habituar e precisam de criar defesas na cidade. Caso contrário, com maiores dificuldades irão percebê-las mais tarde. A cidade, por sua vez, precisa de ser planeada e desenhada tendo em conta as necessidades e as limitações dos miúdos e, talvez mais importante, a forma comos os circuitos típicos dos adultos se cruzam com os dos mais novos.

Todos estes aspectos sustentam o facto de não ser a favor da segregação das crianças em centros escolares, fora dos centros urbanos. E não é só por gostar de ouvir a festa que fazem quando atravessam as vilas e as cidades quando regressam a casa…

Marina Tavares Rodrigues publicou mais um volume da colecção Lisboa Desaparecida (Edições Quimera). O nono. Desta vez não se trata de recuperar fotografias de edifícios que desapareceram da cidade. Este volume procura os sítios de onde as pessoas desapareceram, ou então sítios que se apagaram do desenho mental dos habitantes da cidade.

“As pessoas vivem numa cápsula. Saem da cápsula casa, entram na cápsula elevador, saem da cápsula garagem e entram na cápsula automóvel e voltam a sair na cápsula escola. Ao fim-de-semana vão para a cápsula centro comercial. Os mais velhos separam os filhos da cidade onde moram. Não se assimila que a cidade é uma mais-valia que todos temos” – disse Marina Tavares Dias à revista Visão.